I was born like this, I had no choice
I was born with the gift of a golden voice
Tower Of Song
Estava cheia de medo. O mestre vinha cá, e os riscos eram imensos: e se a voz fosse um eco rouco do que já foi? E se muitos arranjos e orquestras dessem cabo das músicas? E se se limitasse a cantar as coisas mais recentes?
Pontualíssimo, entrou em palco ao som do Dance me to the end of love (uma das minhas memórias visuais mais antigas, porque o vídeo da «música do hospital» sempre me impressionou, é assim uma espécie de memória cinzenta do que também foram os anos oitenta). Seguiram-se outras coisas, das mais recentes. E um intervalo. E, na segunda parte, a noite, e mais canções. Não sei bem quando, a música deixou de ser o mais marcante. Ou antes, fundiu-se com a voz. E ela com as palavras, como se o mestre, mesmo quando tenta ser sóbrio, sofresse de incontinência poética. Tirando o Hallelujah, que nem sequer é das minhas músicas preferidas, e que foi um momento dos mais poderosos a que já assisti ao vivo, as músicas limitaram-se a ser iguais a si mesmas; sublimes, é certo, em alguns casos... mais não mais que em estúdio. A diferença estava na presença... sonora, do Cohen. Aquela voz, mais profunda e terna que nunca, é um fenómeno acústico. Faz-nos vibrar não sei bem onde, e aloja-se de mansinho num sítio impossível onde a poesia toca a pele. E sim, Cohen é sobretudo poesia. Por isso, faz todo o sentido que se tenha despedido a querer ser verso. Fomos, mais ou menos todos, trabalhando com ele nessa fusão: aplaudimos o Cohen sobretudo quando cantou a sua própria voz. E a humildade, certamente trabalhada como um verso deve ser, com que se entregou ao público passou a ser mais uma música de Leonard Cohen. Daquelas que nos falam relações complexas entre mestres e discípulos, religiões e filosofias, momentos e memórias.
Para mim, a grande beleza das músicas do Leonard Cohen é encherem de luz um momento efémero. A poesia é isso mesmo: um momento de luz e palavras, que não tem de ser mais que isso. Na velha metáfora da literatura tradicional, as águas de um rio nunca são as mesmas. Cohen mostrou que cada canção é um momento (e fez questão de apresentar os músicos e de lhes chamar coisas como «shepherd of strings» e «master of breadth» música a música) desses, e conseguiu transformar-se em luz sonora por uma noite. Quis ser um verso de comunhão e entrega. De sedução e inteligência. E conseguiu. Foi o adeus mais bonito que já ouvi. E vou continuar a ouvi-lo, não andasse ele há umas décadas a dizer-me So Long...
Não cantou o Famous Blue Raincoat. Mas não foi preciso.
Famous Blue Raincoat
Dance Me To The End Of Love
Take This Waltz

