Hunger, de Steve McQueen, ganhou a Câmara de Ouro do Festival de Cannes de 2008, e foi exibido recentemente no DocLisboa.
Objectivamente, não é um documentário. Quanto muito, seria ficção baseada em factos reais. Mas, de facto, aproxima-se bastante mais de um documentário do que eu estava à espera... não em torno da greve de fome de 1981, nem tão pouco da figura de Bobby Sands, mas da dimensão física do sofrimento.
Na ficção, ou no documentário, a perspectiva e a delimitação do campo a abordar são o primeiro passo dado no enredo. E exigir-se-ia a um documentário sobre um evento tão complexo como a greve de fome em que morreram 10 republicanos irlandeses em 1981, pelo menos, algum enquadramento. É o que acontece, por exemplo, nos outros dois filmes já produzidos sobre o assunto: H3 e Some Mother's Son. Abordam aspectos diferentes, mas paira sobre ambos uma teia de consequências e eventos que realçam o natureza colectiva/comunitária de um dos períodos mais traumáticos da história recente da Irlanda do Norte.
A estratégia de McQueen é muito diferente: Bobby Sands surge tardiamente em Hunger, mas suga de imediato o foco, como se todos os planos e cenas anteriores mais não tivessem feito que preparar a sua entrada em cena. Parco em palavras, optando até por realçar a solidão nas celas em detrimento do espírito de camaradagem reportado em todos os livros e artigos sobre o assunto (inclusivamente no Diário de Bobby Sands), o filme transmite de forma absolutamente tangível as várias formas de violência de que eram alvo os prisioneiros republicanos. Enquadrando, portanto, magistralmente aquilo que é de facto documentado: o declínio físico atroz de Bobby Sands durante os 66 dias em que se recusou a ingerir alimentos, exigindo a reinstauração do estatuto de preso político para os prisioneiros republicanos (retirado em 1976, numa estratégia clara de Londres para «criminalizar» a causa republicana e assim erodir o apoio popular ao IRA.)
Parece haver algum consenso (aqui e aqui, por exemplo) em classificar o filme como «escatológico», mas penso que o melhor adjectivo é «realista». Todas, sem excepção, as formas mais «escatológicas» estão descritas ao pormenor na literatura sobre o assunto (sobretudo em Biting at the Grave e na biografia de Sands), e Steve McQueen limita-se a traduzi-las visualmente. Mesmo assim, não acredito que haja no mundo empatia suficiente para sequer imaginar o que terá sido viver quase cinco anos apenas com um cobertor como roupa, sem tomar banho e rodeado de paredes cobertas de excrementos e comida podre. Mas talvez ajude a perceber porque é que, apesar da intervenção das famílias, nunca faltarem voluntários para morrer lenta e dolorosamente em nome de um estatuto.
E McQueen acerta na mouche: tendemos a referir a greve da fome pela sua carga simbólica. Mas se a força simbólica advém precisamente do sofrimento envolvido, porquê tanto pudor em retratar a sua dimensão física até agora? Hunger não nega, nem denigre, nem esgota a simbologia: olha-a nos olhos.
Porém, o que no filme mais me impressionou foi a contenção verbal: se todos os planos (lindíssimos) nos conduzem por um fio narrativo entre tantos possíveis, mas deliberadamente deixados de fora (por exemplo, a dimensão política fora da prisão, como a eleição de Sands para Westminster ou o reconhecimento eleitoral do Sinn Féin), nem por isso a greve de fome de Sands é retratada como um acto desgarrado. Para além de parcas, as descrições verbais não se sobrepõem às imagens, nem as explicam: complementam-nas, sem desperdiçar uma única sílaba, numa construção mais habitual no teatro que no cinema (o dramaturgo Enda Walsh é co-autor do guião). Basta um diálogo para enquadrar cronologicamente a greve de fome e resumir o retrato que Dennis Hearn dá de sands na (única) biografia: energético, lúcido mas idealista, mais virado para o trabalho comunitário que para a luta armada, e consciente das contradições do acto que se propõe cometer sobre si próprio.
No fundo, Hunger é um filme sobre a relação entre violência e liberdade. Que as duas estejam tão interligadas, faz parte da história como Sands a viveu na carne, dentro e fora da prisão. Os pássaros que voam quando ele morre são certamente uma alusão à cotovia, o tal passaroco que deixa de cantar quando o metem na gaiola, e que Sands escolheu como metáfora para si mesmo nos poemas que escreveu em mortalhas e folhas arrancadas da Bíblia. Mas aqui entramos no domínio do meramente simbólico. Ou seja, da pura ficção. E Hunger é um documentário.
