A vitória do Obama deixa-me feliz, pois claro. Gosto desta esperança histérica, porque é vaga mas é uma boa esperança: a de que o mundo pode ser transformado, e em algo de mais solidário e optimista. E agrada-me a simbologia de ver um preto eleito, pela primeira vez, num país onde a maioria da população é branca. E onde os pretos como ele há poucas décadas nem direito de voto tinham. Não é paternalismo, nem racismo invertido: é discriminação positiva. Se não fosse o primeiríssimo, nem se falava do assunto.
Mas a questão da «raça» fica-se por aqui - Obama não é uma figura da luta contra a discriminação racial, é um sintoma dos progressos nessa luta. O que me interessa, de facto, é o que é que ele vai fazer como presidente.
E não acho que me vá desiludir - porque as expectativas concretas não são muitas. Espero que ponha um ponto final na sangria do Iraque e na vergonha de Guantanamo, que regule o neoliberalismo desenfreado (mesmo que seja por necessidade e não por convicção ideológica), que de facto aumente os impostos sobre os rendimentos mais altos e crie algo de parecido com um sistema que garanta cuidados saúde para toda a gente. Não sei bem quando nem como, e sei que possivelmente não vai ser da maneira que eu apoiaria.
Mas só me declararei desiludida se ele fizer o que NÃO é suposto fazer - mandar e desmandar na política internacional ao bel-prazer da indústria sanguinária do armamento, alimentar a ganância dos capitalistas furiosos, marimbar-se completamente para as pessoas em geral, para o ambiente e para o direito internacional, incentivar a ignorância, a tacanhez e o medo. Não espero mais que estes serviços mínimos.
Mas então porque é que estou, de facto, tão contente? Talvez seja, confesso, porque os republicanos perderam. Porque a visão Palin do mundo - mesquinha, burra, opressora, fundamentalista e carneirista - desta vez não ganhou. Este mundinho amargo que vive de semear ódios e proibir a felicidade alheia ontem foi rejeitado por uma vaga de gente que, entre outras coisas, disse não a essa América do triunfalismo e da estupidez que os Georges Bushes e as Sarahs Palins encarnam.
Mas há muita coisa que me assusta nestas eleições. Por um lado, assusta-me que 48% dos americanos acreditem que o egoísmo e a ganância são sagrados, que a ciência é um sacrilégio, e que o ódio é um mandamento bíblico. Mas confesso que ainda me assusta mais que tenham votado numa candidata a vice-presidente cujo discurso não tem mais coerência e substância do que o produzido por um gerador automático de texto...
(Imagem de mav | port2port, via A Ervilha cor de ROSA)