Há umas semanas, o governo anunciou alterações à licença de parentalidade. Gerou-se algum alarido, e eu juntei-me à festa, mas entretanto sucumbi às virosidades da vida, e só agora, já algo fora de tempo, é que me dedico ao assunto por aqui.
A ideia de fazer activismo maternal aterroriza-me, pelo mau gosto. E pensava que já tinha varrido de vez do sistema os resquícios hormonais que fazem com que vibremos com tudo o que aluda a partos, amamentação e deliciosas crias em geral.
Mas não. Fala-se em «família» e salta-me logo a tampa. Por isso, aqui vai (em tríptico, para ficar mais maneirinho):
Ninguém se atreve a negar que o leite materno é o alimento ideal para um bebé. A Organização Mundial de Saúde é clara nas suas recomendações: amamentação em exclusivo e a pedido até aos seis meses. É o melhor começo de vida que a ciência e a tradição (de mãos dadas!) recomendam, e não custa nada dizer que dar de mamar é o melhor que há.
E dar de mamar também não custa nada...
Alto lá! Custa, pois. Primeiro, há que tomar o jeito; depois, aturar muita gente, desde a vizinha de cima ao ex-namorado do padeiro, que sabem sempre tudo e mais alguma coisa e adoram o adjectivo «fundamentalista»; e, finalmente... há a hipocrisia do costume: o Ministério da Saúde a gabar-se de promover a amamentação, a bem da saúde pública, mas a esquecer-se de articular as boas intenções com a legislação laboral, nomeadamente a licença de maternidade.
É impossível dar de mamar a pedido e em exclusivo estando longe dos bebés mais que 2-3 horas por dia. A produção diminui radicalmente e o leite deixa de reflectir as necessidades específicas da criança (sim, a mãe natureza saiu-se muito bem nisto). As bombas, que não são nada fáceis de utilizar, não conseguem manter os níveis de produção; e requerem um mínimo de privacidade e condições de refrigeração e higiene que não existem nos locais de trabalho em geral.
A prová-lo está o facto de a maior parte das mães que amamenta deixar de o fazer quando regressa ao trabalho. O que significa que a esmagadora maioria dos filhos de mães trabalhadoras não são, de facto, e ao contrário do que a OMS recomenda, amamentados em exclusivo e a pedido até aos 6 meses. Numa política integrada de promoção da saúde pública, a médio/longo prazo, a licença de maternidade não poderá ser inferior a 6 meses (nota: «maternidade» é diferente de «parentalidade»), independentemente do tempo a que o pai ou outro responsável tenha direito.
E o regresso ao trabalho não deve ser abrupto: aos 6 meses a criança começa a ingerir outros alimentos, mas durante mais alguns meses o leite continuará a ser a base da alimentação. Aliás, a OMS (esse bando de radicalóides...) recomenda a amamentação até pelo menos 1 ano de idade, e depois durante o tempo que mãe e filho o desejem. Além disso, o ingresso no berçário deve ser gradual, caso contrário é uma violência para a mãe e para a criança (e para quem estiver a tomar conta dela). Os primeiros meses são basicamente para coleccionar (e partilhar!) viroses e maleitas que espetam com cria e mãe/pai/whoever em casa metade do tempo de qualquer maneira. Permitir o regresso gradual ao trabalho, em regime de part-time, durante 2 meses, por exemplo, seria benéfico para toda a gente.
Em suma: 6 meses de licença maternal + 2 em part-time. É uma diferença que não chega a 3 meses na vida de uma empresa; mas são três meses fundamentais para a saúde e bem-estar, actuais e futuros, da criança. É preciso ter vistas muito curtas para não perceber isto.
E antes que me chamem de radical-fundamentalista-mamoevangélica: quem não quer dar de mamar não dá, ok?

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Posted by: rena ferrer | 03-09-2009 at 23:03