Nada como uma boa polémica literária...
Há dias o Daniel Oliveira comentou, quase en passant, as declarações polémicas de Martin Amis relativamente à comunidade muçulmana. Não me vou alongar a vilipendiar o senhor, até porque Terry Eagleton já o fez em mais do que uma ocasião, e quem sou eu para acrescentar uma vírgula ao que diz o mestre...
O post no Arrastão vinha no seguimento de um assunto que deixou e blogosfera em (justificada) polvorosa - o caso James Watson, e a alegada menor inteligência dos pretos relativamente aos brancos.
Racismos de diversa índole à parte (não porque não os critique veementemente, mas porque, apesar de tudo, este blog é sobre literatura...), interessa-me antes comentar duas coisas bastante interligadas: as responsabilildades sociais da ciência e da literaura (ou de quem as pratica profissionalmente), e a diferença que existe, ou não, entre essas responsabilidades.
Terry Eagleton é o meu crítico literário de referência, e é-o justamente porque soube transformar a crítica marxista em mais do que um exercício de descortinar lutas de classes nos textos. Fascinou-me desde que li Literary Theory - An Introduction a análise do próprio conceito de literatura à luz da sua vertente social: «literatura» designa então um grupo de textos que as autoridades (de diversos campos, desde o académico ao económico, dependendo dos tipos de poder mais valorizados em cada tempo) definem como tal, por motivações externas ao próprio texto. O que incomoda Eagleton é o resultado deste exercício deliberado: a literatura é então um subconjunto de toda a produção escrita (e oral, mas deixemos de lado este pormenor fundamental por ora), com um público-alvo elitizado, que o absorve sobretudo pela valorização social. É como se a literatura se empenhasse em reservar o prazer estético da palavra nas mãos da elite, acentuando as divisões de classe na forma em que se plasmam nos hábitos culturais. Uma das funções da crítica seria, então, fazer a explodir o edifício «literatura» e implementar em vez dele uma consciência cultural massificada que permita, por um lado, que o juízo de autoridade não esteja restrito à Academia e a quem nela manda, e, por outro, «dessacralizar» a estética, tornando-a no pão nosso de cada dia para toda a gente.
Não é claro que a prática crítica de Eagleton aplique estes postulados, e certamente não se resume a eles. Mas não é muito difícil perceber que um desafio tão tremendo exige de todas as forças envolvidas no processo da literatura uma grande responsabilidade social. Não se trata de exigir um retorno serôdio de um qualquer neo-realismo, nem de reduzir a figura do autor a bardo da classe operária; mas antes de explicar que a ideologia de um texto, ao contrário do seu significado, extravasa-o e tem ramificações sociais e políticas... inevitavelmente. O papel da crítica seria então explorar a relação entre o texto e essas ramificações. Mas não será ingerência tecer comentários acerca de declarações produzidas fora do âmbito do texto literário (como as de Martin Amis)?
É aqui, a meu ver, que os casos de Amis e Watson dão as mãos. Ambos dizem disparates que não são nem literatura nem ciência. Isso ninguém discute (nem os próprios). Mas não fora a «autoridade» de que os investiu a respectiva produção literária e científica, não teriam tido o tempo de antena que tiveram. Por isso, no mínimo abusam de um estatuto de forma absolutamente irresponsável. Mas estão no seu direito, é um facto. Desde que não bradem aos céus quando outros exercem o direito equivalente de lhes responder.
E é aqui que as águas se separam: é perfeitamente óbvio que a literatura e a ciência geram responsabilidades sociais diferentes, porque a sociedade desde há muito que as valoriza de forma diferente. Comparadas com as declarações de Watson, as de Amis são um mero pecadilho. Percebo perfeitamente que Eagleton se indigne contra Salman Rushdie, porque de um arauto do pós-colonialismo espera-se que não aceite ser peão do império, sobretudo quando esse império anda investido de belicismo colonialista. Nunca li nada de Martin Amis, e não sei de que simbologias literárias anda revestido. Mas se um senhor professor de literatura diz o que lhe vai na alma, o mínimo de que pode estar à espera é de que outro senhor professor lhe responda na mesma moeda (neste caso, brandindo o título de eminência literária). Com Watson a coisa pia mais fino, porque a sua autoridade e estatuto público advêm de investigar aquilo a que o senso comum chama «verdades da ciência». E a irresponsabilidade de quem carrega com o peso e a glória de tais desígnios tem se ser punida de forma irrepreensível... no campo da própria ciência, é claro. Só uma comunidade científica absolutamente irresponsável abdicaria de defender a sua própria credibilidade, ignorando afirmações deste calibre porque não foram proferidas numa conferência ou publicação científica. Até porque, repito-o até à exaustão, se a ciência não tivesse o impacto que tem na percepção que temos do mundo, os disparates de Watson seriam mais um chorrilho anónimo de puro racismo, e não sairiam nos jornais notícas que começam assim:«James Watson, Nobel da Medicina em 1962, um dos homens responsáveis pela descoberta da estrutura molecular do ADN, a dupla hélice da vida, precursor da genética, acredita que os negros são menos inteligentes que os brancos.»
Finalmente, e à laia de desabafo: os Eagletons deste mundo agradam-me deveras... assumem a ideologia por trás do que dizem e sabem, por defeito profissional, que a verdade está circunscrita ao quadro teórico que a produz e às circunstâncias em que é apreendida. São corajosos, intelectualmente honestos... e bastante mais interessantes.
ps: acho justo deixar aqui o link para a resposta de Martin Amis a Terry Eagleton. Não posso deixar igualmente o comentário original do Eagleton, porque consta da introdução da nova edição revista de Ideology: An Introduction, que ainda não tenho (faz parte da wish list aqui ao lado).




