A propósito do 25º aniversário da greve de fome de 1981, que se celebrou (obviamente...) em 2006, e partindo do princípio de que é altura de fundir homenagens com distanciamento histórico, foram publicados vários livros acerca do assunto.
Um dos mais esperados foi esta biografia de Bobby Sands, assinada por Denis O'Hearn. Sands liderou a greve de fome de 1981 e morreu a 5 de Maio, depois de ter sido eleito deputado em Westminster. Tornou-se um ícone para o movimento republicano irlandês, e a poderosa simbologia do seu gesto valeu-lhe a fama e um imenso respeito um pouco por toda a parte. No entanto, permaneceu uma figura vaga, associada a uma única fotografia desfocada e aos poucos escritos que publicou (artigos no jornal republicano An Phoblacht, sob o pseudónimo de «Marcella», poemas e um diário relativo aos primeiros quinze dias em greve de fome). É certo que algures por 1981-2 não faltaram panfletos e elegias, mas em todos se celebra, inevitavelmente, a capacidade de morrer por uma causa, mais do que uma vida a ela dedicada.
A obra de referência relativamente à greve de fome é Ten Men Dead (1987), de David Beresford, elaborado a partir das comms, mensagens escritas em papel higiénico ou mortalhas que foram sendo regularmente «contrabandeadas» para e dentro e fora da prisão, e que eram a única via de comunicação aberta entre os prisioneiros e a liderança do IRA no exterior. Mais tarde, Pádraig O'Malley editou Biting At the Grave (1990), que propõe sobretudo uma análise psicanalítica da relação entre o catolicismo e o recurso à greve de fome na Irlanda. Naturalmente, Bobby Sands ocupa um lugar de destaque em ambos os livros, mas nunca chega realmente a ganhar contornos individualizados (para lá da bonomia e de uma imensa energia que todos lhe reconhecem). O que é perfeitamente natural, uma vez que depois dele morreram mais nove prisioneiros em greve de fome.
Por isso, e apesar de estar bastante mal escrita, esta biografia é um acto louvável. Mais do que tentar explicar o que leva um jovem de 27 anos a optar deliberadamente por uma morte atroz em nome de um estatuto (o de «preso político» em vez de «criminoso»), Denis O'Hearn foca-se numa descrição da segregação e violência que levaram tantos contemporâneos de Bobby Sands a optar pela luta armada. E explora o pensamento político de Sands – sobretudo a crença no socialismo revolucionário e o trabalho que efectivamente levou acabo na sua comunidade, dinamizando associações de moradores e de trabalhadores, editando jornais e organizando eventos desportivos e culturais. Bobby Sands passou grande parte da sua vida adulta na prisão, por isso é natural que uma parte significativa do livro seja dedicada ao papel que Bobby desempenhou na comunidade prisional muito antes da sua morte, nomeadamente na educação política, no ensino do irlandês, e em intermináveis discussões, cantorias e sessões de poesia.
Bobby Sands morreu em 1981. É agora relativamente consensual que o principal legado da greve de fome foi o reconhecimento por parte do movimento republicano de que a luta armada não poderia substituir a via política para a resolução do conflito. O culminar deste lento processo foi o processo de paz que permitiu ao IRA calar as armas sem ter sido derrotado. Vivem-se dias muito mais pacíficos na Irlanda do Norte, mas a fronteira continua a existir. Por isso, se há quem veja no sacrifício de Bobby o germe da paz, também não falta quem acuse Gerry Adams e os seus companheiros de traírem a memória dos grevistas da fome, ao aceitar muito menos que uma Irlanda unida e socialista.
Salta à vista a estupidez do exercício: é impossível saber o que pensaria Sands do processo de paz. Entre outras coisas demasiado óbvias para escrever aqui, porque um processo de paz seria impensável em 1981. Mas já não me parece tão estúpido o que O'Hearn tenta fazer no final deste livro: ao realçar o pensamento marxista de Bobby Sands e a sua imensa, e compreensível, solidariedade para com os povos oprimidos por todo o planeta, faz sentido assumir que ele seria... um alterglobalista convicto. A diferença? É que o contexto relativamente à luta armada e as suas possibilidades de êxito se foi profundamente alterando ao longo de 25 anos; ao passo que a injustiça global representada pelo capitalismo monopolista, pelo liberalismo económico desenfreado e pelo belicismo que os tem servido apenas se acentuaram nesse período. No entanto, é de bom senso pormos a coisas no devido lugar: não sabemos se Bobby Sands teria fundado a plataforma irlandesa da ATTAC... mas podemos esperar que quem se preocupa com mundos menos injustos saiba quem foi e porque morreu Bobby Sands.
Em suma, Hearn dá corpo ao que Gerry Adams anda a dizer há 25 anos: que Bobby Sands era apenas «one of the lads», um filho (bastante energético) do seu tempo, e que isso, mais do que qualquer outra coisa, explica porque é que se empenhou em definhar até lhe rebentarem, literalmente, as entranhas. É inevitável que o nome de Bobby Sands seja associado sobretudo à forma como escolheu morrer, e ao papel de carrasco que Margaret Thatcher, com a sua intransigência criminosa, desempenhou no processo. Mas convém nunca esquecer que em cada cadáver-símbolo há uma vida que merece ser contada. Por respeito ou até por mera pedagogia, para que tantos que não viveram estes traumáticos acontecimentos (ou que eram demasiado novos para os entender, como eu...) possam perceber o seu verdadeiro significado histórico.
Saiu entretanto a uma curta biografia de Kevin Lynch. Faltam 8.
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